Resumo:
As comunidades tradicionais, em especial as quilombolas, detêm grande parte do conhecimento
sobre o uso, cultivo e manejo dos vegetais, sendo consideradas como importantes agentes na
conservação do patrimônio cultural e biológico desses locais. Onde a etnobotânica, surge como
uma importante ferramenta de resgate, registro e valorização desses conhecimentos. Dessa forma,
o presente trabalho teve como objetivo realizar um levantamento etnobotânico sobre as plantas
nativas e exóticas, úteis para humanos e animais, em seis comunidades quilombolas do Ceará,
abordando plantas medicinais, alimentícias, tóxicas, repelentes naturais, bem como os vegetais
classificados na categoria de outros usos, como por exemplo, os utilizados como fonte de recursos
madeireiros, para fins paisagísticos, e em rituais religiosos/espirituais. Além de efetuar uma análise
detalhada sobre a relação do número de citações com os dados socioeconômicos dos participantes,
bem como, identificar cientificamente as plantas citadas, depositá-las em herbário e apontar as
famílias botânicas e espécies mais representativas. A pesquisa foi desenvolvida de julho de 2014
à julho de 2020, nas comunidades quilombolas de Água Preta e Conceição dos Caetanos (Tururu),
Alto Alegre (Horizonte), Lagoa das Melancias (Ocara), Nazaré (Itapipoca), e Serra do Evaristo
(Baturité). A amostra total do grupo foi constituída por 133 entrevistados, com idade igual ou
superior a 20 anos e que residam em uma das comunidades participante da pesquisa. Como
procedimentos metodológicos, foram aplicados formulários de entrevistas semiestruturados,
contendo perguntas abertas e fechadas sobre as plantas úteis nas quatro grandes categorias
abordadas. Do total de entrevistados, 71,4% são do sexo feminino, apresentando uma maior
frequência na faixa etária dos 60 a 69 anos (24,1%). Uma parcela significativa dos informantes
apresenta pouca (58,6%) ou nenhuma escolaridade (26,5%), e 85% trabalha na agricultura. Das
405 plantas citadas, 206 são medicinais, 76 são tóxicas e/ou repelentes naturais, 202 são
alimentícias e 153 foram citadas na categoria de outros usos. A comunidade quilombola de Nazaré
apresentou um maior número de plantas citadas, com 252 etnoespécies, seguida por Conceição
dos Caetanos com 212, Água Preta e Alto Alegre com 200, Serra do Evaristo com 189 e Lagoa
das Melancias com 161. 89,1% das plantas citadas foram identificadas, distribuídas em 86 famílias
e em 253 gêneros, com um maio número de espécies citadas para a família Fabaceae. Do total de
espécies com identificação, 173 são nativas do Brasil. Esses resultados mostram que as
comunidades remanescentes de quilombo ainda possuem uma forte relação com as plantas,
estando mais interligado as mulheres da comunidade, e diretamente relacionado a idade, profissão
e ao nível de escolaridade, indicando assim, que as técnicas empregadas pelos mais velhos estão
sendo perdidas com o passar do tempo. Através desse estudo, foi possível identificar as espécies
nativas e reforçar a importância destas para as comunidades envolvidas, bem como detectar os
principais prejuízos causados pela introdução de plantas exóticas. O trabalho auxiliou na coleção
botânica da UNILAB, traçando o perfil da flora local, contribuindo em futuras pesquisas e no
desenvolvimento de políticas públicas voltadas para esses povos.
Descrição:
MAIA, Antônia Larissa da Silva. Etnobotânica de plantas úteis no paisagismo em comunidades Quilombolas no Cerará, Brasil. Monografia - (Licenciatura) Curso de Biologia,Instituto de Ciências Exatas e da Natureza,
Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, Redenção, 2021.