Abstract:
Esta dissertação tem como tema o estudo dos recursos intertextuais como práticas discursivas
planejadas para a construção de sentidos, com foco nas práticas hipertextuais de transformação
do mito de Cupido e Psiquê para o teatro de bonecos. Para tanto, buscou-se analisar as relações
intertextuais utilizadas pelo grupo Paideia, nas práticas hipertextuais de transformação do mito
clássico, contido na obra O asno de ouro, de Apuleio, para a peça Psiquê e Eros. Desde 2002,
o grupo Paideia tem se dedicado à adaptação de textos clássicos gregos e latinos para a
encenação no teatro de bonecos. Esse ofício envolve práticas discursivas de modo bastante
particular; uma vez que se trabalha com traduções de textos gregos e romanos, em seu texto
original, e, a partir deles, cria-se um novo texto, valendo-se de recursos intertextuais, referências
e alusões, como práticas planejadas para a construção de sentidos de texto. Para a análise desses
elementos, inicialmente, foram realizadas revisões da literatura acerca das noções de texto,
textualidade e intertextualidade. Visando à compreensão desse fenômeno como prática
discursiva textual, ancoramo-nos nos estudos de Cavalcante (2021), Cavalcante e Brito (2011;
2012), Koch (1985, 1991, 1994, 1997a, 1997b, 2023), Koch, Bentes e Cavalcante (2012),
delimitando nossas análises com base nos estudos de Nobre (2014), Faria (2014) e Carvalho
(2018), mas, antes, retomamos às pesquisas pioneiras sobre intertextualidade de Genette (2010),
Piègay-Gros (2010), Sant’Anna (2003). Partimos do pressuposto de que as adaptações do grupo
são hipertextos da obra clássica O asno de ouro, seu hipotexto, e que o uso das
intertextualidades nas peças, em seus aspectos textuais, é uma estratégia discursiva planejada
pelo Paideia que visa à adequação do texto a contextos distintos e alcance dos propósitos
pretendidos. Assim, o corpus foi composto por 9 hipertextos (roteiros) da peça Psiquê e Eros,
produzidos pelo grupo Paideia para encenação em tempo, espaço e público diferentes. A análise
foi dividia em três momentos distintos: a) análise da prática hipertextual do grupo, quanto às
técnicas de transformação e parâmetros intertextuais utilizados na construção dos hipertextos;
b) análise comparativa de cenas em contextos diferentes; e c) análise dos recursos intertextuais.
A partir dessa articulação procuramos descrever o processo de criação dos textos adaptados de
Psiquê e Eros; analisar os parâmetros intertextuais utilizados na construção dos hipertextos do
grupo; mapear os fenômenos intertextuais e referenciais utilizados no texto adaptado e suas
readaptações para diversos contextos de apresentação; e, por fim, identificar o propósito
comunicativo das relações entre textos estabelecidas. Ao término de nossa pesquisa, chegamos
à conclusão de que, ao transformar o texto de Apuleio para encenação no teatro de bonecos, o
grupo Paideia utiliza diversos e múltiplos processos que resultam em alterações no formato e
no estilo bem diferentes do que encontramos no texto-fonte. A linguagem é caracterizada pelo
uso do regionalismo cearense e por inclusões de termos e expressões referenciais que demarcam
modo e o estilo da época em que o texto foi produzido. A relação estabelecida entre as práticas
hipertextuais do grupo e o hipotexto, verificada pela análise dos parâmetros intertextuais, além
de promover a contação do mito clássico, que tem servido de hipotexto para diversas práticas
hipertextuais e hiperestéticas nos últimos séculos, convida, a partir de excertos textuais
dialógicos, a participação ativa do interlocutor no processo de construção de significados. São
essas inserções intertextuais, estritas e amplas, que atribuem o caráter subversivo ao hipertexto
do Paideia.