Resumo:
Um dos pontos defendidos pela Resolução CNE/CEB n° 08/2002 é o da valorização
dos conhecimentos locais dos quilombos brasileiros pelos projetos político-
pedagógicos das escolas quilombolas. Esta Resolução vem de encontro a um anseio
ancestral que nos atravessa, enquanto povo quilombola, que é o de tornar o espaço
escolar em um local de encontro dos estudantes com sua própria identidade ancestral
e de valorização de sua própria cultura e história. Nesse sentido, inserir os saberes
ancestrais dos quilombolas e os conhecimentos produzidos por estes em seus
territórios nos currículos das escolas é um passo fundamental para a descolonização
do saber no contexto da Educação Quilombola. Assim, este trabalho surge como uma
resposta a esse desafio, visando à inserção dos bordados desenvolvidos por um grupo
de bordadeiras da comunidade quilombola de Alto Alegre como potencializadores do
ensino de Matemática na escola desta comunidade. Deste modo, pode-se promover a
descolonização do currículo escolar, afinal, a Matemática ensinada nas escolas é a
produzida pelo Ocidente, ficando de fora outras perspectivas, como a Matemática
africana. Logo, este trabalho faz, primeiramente, uma crítica à centralização da
Matemática helênica/ ocidental pelos currículos das escolas quilombolas, propondo a
Etnomatemática como uma via de superação deste cenário. Para isso, faz-se um
debate, junto a outros autores, sobre a importância da valorização dos nossos
conhecimentos no contexto escolar e sobre a possibilidade e a necessidade de uma
Etnomatemática Quilombista como um vetor de inclusão destes conhecimentos nas
escolas. Partindo desse debate, faz-se então um breve relato etnográfico,
fundamentado na metodologia de observação participante, sobre o trabalho das
bordadeiras do coletivo Bordando Resistência, composto por mulheres do quilombo
de Alto Alegre, evidenciando neste a presença de uma Etnomatemática Quilombista.
Por fim, como resultado do debate teórico e do relato etnográfico, propõe-se formas
de utilização dos bordados produzidos por estas mulheres na mediação do ensino de
Matemática, dentro de uma perspectiva interdisciplinar e que valoriza os aspectos
identitários e ancestrais do povo negro e quilombola. Deste modo, este trabalho
oferece uma rota de fuga à colonialidade curricular no contexto da Educação
Quilombola, celebrando a potência das mulheres de Alto Alegre e levando esta
potência para a sala de aula, fortalecendo, assim, a identidade quilombola dos nossos
mais novos e o estabelecimento de uma Matemática africanizada e quilombista em
nossas escolas.
Descrição:
NASCIMENTO, Francisca Marleide do. Interface entre a etnomatemática quilombista e a cultura das bordadeiras de Alto Alegre: contributo decolonial para o currículo escolar. 2022. 88f.
Monografia - Curso de Pedagogia, Instituto de Humanidades, Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira, Redenção-Ceará, 2022.